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Onde os clientes de uma corretora compram cripto?

Uma parte da base de clientes de corretoras e fintechs está comprando stablecoins via Binance, transferindo reais para a Mercado Bitcoin ou abrindo conta no Nubank especificamente para acessar BTC. Os dados mostram esse comportamento de forma consistente e em volume crescente.
O Brasil recebeu US$ 318,8 bilhões em criptoativos entre julho de 2024 e junho de 2025, crescimento de 109,9% em relação ao período anterior, segundo o relatório Geography of Cryptocurrency 2025 da Chainalysis. O país está em 5º lugar no índice global de adoção, subindo do 10º em um único ciclo. O Brasil representa quase um terço de toda a atividade cripto da América Latina. A região acumulou US$ 1,5 trilhão em volume entre julho de 2022 e junho de 2025, com pico de US$ 87,7 bilhões em dezembro de 2024. Esses números descrevem uma parcela relevante da população financeiramente ativa, com o mesmo perfil de quem já é cliente de bancos, corretoras e fintechs estabelecidas.

O perfil de quem adota cripto no Brasil hoje

Estima-se que entre 12% e 19% da população brasileira usa ou possui criptoativos, dependendo da metodologia. Na Argentina, o percentual chega a 19,8%. Na região, a base de usuários cresceu três vezes mais rápido do que nos Estados Unidos em 2025. A adoção hoje é de varejo, em escala, com perfil de investidor que já tem conta em banco e já usa fintech.

O tipo de ativo comprado confirma essa leitura. Mais de 90% do fluxo cripto no Brasil são stablecoins, segundo Gabriel Galipolo, presidente do Banco Central do Brasil. Stablecoins são dolarização prática: proteção contra inflação, acesso a rendimentos indexados ao dólar, hedge cambial disponível no celular. Essa demanda existe independentemente do ciclo de preços do Bitcoin e não desaparece quando o mercado cai.

 

Tokenização de ativos reais: o que já está em operação

O Brasil lidera globalmente em tokenização de ativos reais (RWA). Itaú, Banco ABC e Banco BV já operam com ativos tokenizados em operações reais, reduzindo custo de capital e encurtando ciclos de liquidação. A infraestrutura que começa no segmento institucional chega ao varejo, e quando isso acontecer, a questão sobre qual plataforma o cliente vai usar já precisará ter resposta.

Hoje, exchanges centralizadas dominam: 64% de toda a atividade cripto na América Latina passa por plataformas como Binance, Mercado Bitcoin, Bitso e Ripio, proporção bem maior do que em Europa (53%) ou América do Norte (49%). Neobancos como Nubank e Mercado Pago já constroem posição nesse espaço com a vantagem de um relacionamento financeiro preexistente. O cliente que usa o app de uma instituição para pagar boleto, investir em CDB e contratar crédito pode estar usando um canal completamente separado para comprar USDT ou ETH. Na maioria dos casos, não é preferência pelo concorrente: a opção simplesmente não está disponível na plataforma onde concentra seu relacionamento financeiro. A fragmentação do relacionamento acontece sem que a instituição perceba, porque não há dado capturado nem receita perdida visível nos dashboards internos.

O custo do gap

Esse gap tem custo: receita de corretagem e custódia que vai para outro player, dados comportamentais que a instituição não captura, e relacionamento que se fragmenta no exato momento em que o cliente mais cresce financeiramente.

Corretoras e bancos têm o que a maioria das exchanges não tem: conformidade regulatória estabelecida, confiança acumulada com o cliente e uma base ativa que já deposita dinheiro nessas plataformas. Em novembro de 2025, o Banco Central publicou as resoluções que operacionalizam a Lei de Ativos Virtuais de 2022. O quadro regulatório no Brasil é mais claro hoje do que em qualquer momento anterior, o que é vantagem competitiva para quem já opera dentro do sistema financeiro formal.

Como a integração funciona na prática

A maioria das instituições financeiras tem intenção de oferecer cripto. O obstáculo é a execução. Construir infraestrutura do zero envolve custódia, liquidez, compliance de ativos digitais, integração com múltiplas blockchains e manutenção contínua. É caro, leva tempo e está fora do core de qualquer banco ou fintech.

O modelo de Crypto as a Service resolve essa equação via API: a instituição passa a oferecer compra, venda e custódia de criptoativos para sua base de clientes sem construir nem manter a infraestrutura por baixo. O produto fica na plataforma da instituição; a infraestrutura é operada por quem já faz isso há mais de uma década.

Os clientes dessas instituições não estão esperando o mercado amadurecer. Já decidiram entrar, e encontraram outros canais para fazer isso. O que resta avaliar é por quanto tempo faz sentido deixar essa receita e esse relacionamento nas mãos de outra empresa.