Por que a LatAm precisa de stablecoins locais. Parte 1: a armadilha do dólar

A América Latina moveu US$ 1,5 trilhão em cripto em três anos, quase tudo através de stablecoins de dólar. Essa dependência tem um custo operacional que milhões de pessoas pagam todos os meses. Essa é a armadilha do dólar.

Por que a América Latina precisa de stablecoins locais?

Em três capítulos, vou tentar traçar o arco completo das stablecoins locais na América Latina. Da lacuna estrutural que as criptos denominadas em dólar nunca resolveram, passando pela adoção orgânica que já está mudando como as pessoas movem seu dinheiro, até a infraestrutura que está sendo construída para os próximos 100 milhões de usuários.

A América Latina se tornou um dos mercados cripto mais dinâmicos do planeta. Segundo o relatório Geography of Crypto 2025 da Chainalysis, a região registrou quase US$ 1,5 trilhão em volume de transações cripto entre meados de 2022 e meados de 2025, com um recorde histórico de US$ 87,7 bilhões só em dezembro de 2024. No Brasil, na Argentina e na Colômbia, as stablecoins já representam mais da metade de todas as compras em exchanges.

Esse número merece um momento

US$ 87 bilhões em um único mês. Em uma região que a imprensa financeira global tratou durante anos como um experimento periférico, não como um mercado estrutural.

Mas se você olhar esse volume de perto, aparece outra foto. Quase tudo, a maioria esmagadora, flui através de USDT e USDC. Stablecoins denominadas em dólar: USDC, emitida pela Circle, uma fintech americana; e USDT, emitida pela Tether, constituída nas Ilhas Virgens Britânicas. As duas são cotadas em dólares americanos, as duas foram desenhadas em torno de uma realidade financeira dos Estados Unidos.

Isso não é um acidente. Reflete um problema genuíno que ninguém resolveu por completo até agora: não existe uma versão on-chain confiável e escalável da moeda local.

 

A fricção que ninguém pediu: alguns exemplos práticos 

É assim que se move dinheiro on-chain hoje para a maioria das pessoas na América Latina. Isso é a armadilha do dólar. Não é uma metáfora: é uma restrição operacional literal. Se você quer mover valor on-chain na América Latina, primeiro precisa passar pelo dólar. E voltar à moeda local significa fricção, taxas e demora, todas as vezes.

Josefina, freelancer em Buenos Aires, fatura um cliente internacional. O pagamento chega em USDT. Ela precisa pagar o aluguel, em pesos argentinos. Então vai a um exchange P2P, converte USDT em pesos, paga o proprietário. No mês seguinte, recebe de novo. Converte de novo. Paga de novo. Cada passo custa dinheiro, leva tempo e a expõe ao risco cambial durante a janela de conversão.

J
Josefina Freelancer · Buenos Aires
1
Fatura enviada O cliente paga em USDT
2
Exchange P2P USDT → pesos + taxa
3
Paga o aluguel Em pesos argentinos
Se repete no mês seguinte Todos os meses

 

A lacuna 

A distância entre o que as pessoas precisam e o que existe é clara:

O que as pessoas precisam: uma forma de ter, enviar e receber valor na sua moeda local, on-chain, programável e acessível de qualquer lugar.

O que existe: stablecoins de dólar. Ponto.

Alguns vão argumentar que as stablecoins em USD são a solução, que em economias inflacionárias as pessoas querem exposição ao dólar de qualquer forma. É parcialmente verdade. Mas ignora casos de uso inteiros: comércios que precificam em moeda local, sistemas de folha de pagamento, obrigações tributárias, o comércio do dia a dia. Nem todo mundo está tentando se proteger da inflação. Tem gente que simplesmente está tentando operar um negócio.

A ausência de stablecoins de moeda local não é uma preferência. É uma lacuna no sistema, ou melhor, na infraestrutura.

A pergunta que vale a pena fazer

US$ 324 bilhões em volume de stablecoins, e a moeda local ainda não está on-chain em escala.

O que muda quando ela está?

Essa é a pergunta que a wFIAT está respondendo. Não na teoria: em produção, em seis moedas e quatro blockchains. Vamos olhar os dados na Parte 2.

 

 

Nesta série

 

Perguntas frequentes 

O que é a "armadilha do dólar" no mundo cripto latino-americano?

É a restrição operacional pela qual mover valor on-chain na América Latina exige passar primeiro por stablecoins de dólar. Como quase todo o volume de stablecoins da região flui por USDT e USDC, cada pagamento que começa ou termina em moeda local soma etapas de conversão, taxas, demoras e risco cambial.

Por que as stablecoins em USD não bastam para a América Latina?

Porque há casos de uso inteiros que funcionam em moeda local: os comércios precificam em reais ou pesos, a folha de pagamento e os impostos são pagos em moeda local, e o comércio cotidiano não precisa de exposição ao dólar. As stablecoins em USD servem para quem poupa e se protege da inflação, mas deixam as empresas e os pagamentos recorrentes presos em conversões constantes.

Quais pagamentos fazem mais sentido com stablecoins de moeda local? 

Os fluxos recorrentes denominados em moeda local: freelancers que recebem on-chain mas gastam na sua moeda, liquidações para comércios, folha de pagamento, pagamentos a fornecedores e remessas que terminam em reais, pesos ou outras moedas da região. Nesses casos, liquidar direto em uma stablecoin local elimina por completo a dupla conversão pelo dólar.

Já existem stablecoins de moeda local na América Latina? 

Sim. wFIAT é a suíte de stablecoins de moeda local da Ripio: cobre seis moedas (wARS, wBRL, wMXN, wCOP, wCLP e wPEN) em quatro blockchains, e está viva em produção. Cada uma é lastreada 1:1 na sua moeda local, o que permite ter, enviar e receber valor on-chain sem passar pelo dólar.

 




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